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carta a minha filha

por jeansmonroe, em 21.02.14

Nada me custará mais do que vê-la entrar naquela velha igreja onde já antes tinha chorado meu pai pela última vez, por minhas próprias mãos entreguei-a vestida de branco pérola, deixará de ser minha naquele instante, a partir dali iria amar e ter ciúmes ser mãe dos seus próprios costumes, ser mulher como as outras que desejei…pedi-lhe para que amasse sem a fúria dos relógios, que vivesse sem o medo do tempo, e que a felicidade…bom a felicidade logo a descobria por si mesma.

Viu-o ao fundo da nave principal, um vulto trémulo, tão grande quanto ansioso, magro vestia-se de preto luto, já não se casa de preto luto …ouvem-se saltos de mulheres, ajustar de gravatas, a inquietação das crianças, o barulho das lágrimas, as ultimas mentiras sobre o casamento, aperta-me a mão seguro-a com delicadeza, revejo tudo o que passamos deste o primeiro dia.volta a ser frágil, volta a ser menina e a precisar de mim…viajo para bem longe e já só consigo sentir o cheiro da sala de parto, a aflição de te ver chegar confunde-se com a de te ver partir, eu sou teu pai vi-te nascer, vi-te chorar vi-te crescer como crescem as árvores, choramos juntos cada arranhão e desventura, lutei para que te fizesses mulher, mulher que hoje és por ti não por mérito meu ou de outrem e é neste estado que te entrego ao destino, lembra-te de ser feliz pelo menos uma vez por dia, vai visitar a tua avó uma vez por mês, e liga-me sempre que poderes, não deixes que falem alto contigo, nem confies demasiado no amor, certifica que a tua volta só sobrarão aqueles que te amem tanto ou mais que nós…

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